É doce aprender coisas simples;
depois de uma certa idade, em que a nossa ignorância está sobrecarregada de mil noções úteis e
inúteis, certas ou erradas, acho um encanto especial em descobrir que a esmeralda não é um cristal
feito com os olhos lindos das virgens de olhos verdes que morreram de amor, mas um silicato de
alumínio e glucínio, é irmã gêmea da água-marinha e do berilo, ao passo que a ametista é apenas um
quartzo com seus 15 por cento de óxido de manganês.
Encho meus domingos com uma
longa e vária cultura de almanaque: é uma sabença que não nos oprime, toda cômoda e folgada como
um pijama velho. Direis que não vale nada. É que não sois capaz de sentir a pequena e pura emoção
intelectual que há em saber que no estado do Espírito Santo acontecem por ano em média 30 suicídios,
ou que os cocóis são cabeços de madeira pregados nos alcatrates, e que servem de reforço às
aberturas das falcas. Isso talvez não vos seja muito útil, oh leitor ignorante, pois não fazeis ideia muito
precisa do que são alcatrates e falcas. Eu também não; mas a verdade é que nos momentos de crise
íntima eu me sinto um tanto reconfortado e um pouco mais tranquilo sabendo que os cocóis, pregados
nos alcatrates, reforçam bastante as aberturas das falcas. Um dia, quando estiver mais folgado de
dinheiro, hei de comprar um bom par de cocóis: meu velho sonho era ter um barco; isso nunca pode
ser; mas comecemos pelos cocóis.
Estou abusando um pouco do
ponto e vírgula, o que talvez seja sinal de raciocínio cansado, que anda um pouco, para um pouco. Não
importa, visto que meu espírito se aprimora, e sinto que sou provavelmente, em todo o quarteirão, a
única pessoa conhecedora do verdadeiro nome dos tucanos, que é ramphastos. Há muita qualidade de ramphastos, mas pela beleza do nome eu tenho uma indisfarçável preferência pelo
ramphasto ariel, que as pessoas vulgares chamam de
tucano do bico preto.
Dessas puras noções encho meu
dia; é melhor que ler os suplementos; e à noite, quando me recolho ao duro leito, tenho a consciência
tranquila de quem fez algo de útil, e sonho que sou Fernão Dias Paes Leme, o caçador de silicatos de
alumínio e glucínio, e vejo um belo ramphastos bicando a cabeça do torvo Caliban, que me pretende
separar da linda Miranda, filha de Próspero, o verdadeiro duque de Milão. Estou munido de excelentes
alcatrates. A filha do senhor duque de Milão tem os cabelos dourados como um bife à milanesa, e...
não, não devo contar meus sonhos. Fazei como eu, isto é, fazei cultura.
(BRAGA, Rubem. Almanaque. Correio da Manhã, Rio de Janeiro-RJ, 17 nov.
1954.)